sexta-feira, 19 de novembro de 2010

100 anos de Noel Rosa

Foto site entrelinhas



O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

(Filosofia - Noel Rosa)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Flores de Amsterdã


Foto John Land



As mulheres mais lindas do mundo
E eu lembrando da minha
Como pode um amor ir mais fundo no meu coração?
Quanto mais uma loura me olhava
Eu mais, minha neguinha,
Te lembrava e dizia "D'ocê eu num largo mais não"
Mais levava tua foto apertada em meu peito praieiroMais inteiro me via e pra Santa fazia oração
Que quem guia, guiasse

Quem reza, rezasse
Quem fala, falasse
Ou cantasse com a voz cirandeira
Que quem toca, tocasse

Quem chora, chorasse
Quem cala, calasse
E ouvisse e eu soubesse alemão
Que um xodó lindo assim como o nosso

Fosse a vida inteira
Fosse além desse mundo de barro
Cabasse mais não
Crie filhos e forças e rumos

Parasse mais não
Fosse além desse mundo de barro
Quebrasse mais não
Flores de Amsterdã

Beijos de hortelã
Para minha neguinha
Tarde, noite e manhã
Corpo e mente sã
Para minha neguinha

(Lui Coimbra)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Amando Loucamente

Tela Amadeo Modigliani



Andei amando loucamente, como há muito tempo não acontecia. De repente a coisa começou a desacontecer. Bebi, chorei, ouvi Maria Bethânia, fumei demais, tive insônia e excesso de sono, falta de apetite e apetite em excesso, vaguei pelas madrugadas, escrevi poemas (juro). Agora está passando: um band-aid no coração, um sorriso nos lábios e tudo bem. Ou: que se há de fazer.


(Caio Fernando Abreu)

sábado, 18 de setembro de 2010

Aflição




Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

(Hilda Hilst)

sábado, 11 de setembro de 2010

Vida dentro de nós

Foto: Baldomero Coelho

Esta alma, ou vida dentro de nós, sem opção concorda com a vida exterior.
Se alguém tiver a coragem de perguntá-la o que pensa, ela está sempre dizendo exatamente o oposto do que as outras pessoas dizem.


(Virginia Woolf)

sábado, 4 de setembro de 2010

Valsa das Primaveras (Lavalse de Lilas)



Não se perde a vida assim como você
Que não procura ao menos esquecer
E fica só sem mais pra o que viver
E um pouco pranto
Só por essas poucas páginas de dor
Você fechou o livro do amor
Se deu à morte e desacreditou
Mas enquanto houver a primavera e o amor
Não morrerá, não morrerá essa flor
Que enfeita o peito em festa dos que se amam
Veste a primavera, a primavera e vem
Fazer o amor, colher o amor também
Há quem procura, te procura e quer
Abrir em flor teu corpo de mulher

(Eddie Marnay /Michel Legrand /Eddie Barclay - versão: Taiguara)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Planet Copacabana

Praia de Copacabana


O pó ta acabando e a princesinha quer mais
Aqui nesse planeta bem pertinho do mar
Nasci, e me criei e aprendi a me virar
Logo cedo percebi que não dava pra aturar
Mãe viúva, cinco irmãos e um padrasto a me secar
E, de repente, olhando de relance para a rua
Não me pareceu que a noite fosse tão escura
E, pensando bem, melhor seguir outro caminho
Se eu ficar o bicho come no meu próprio ninho.
Eu sou do Planet Copacabana, ah
E a princesinha do mar tá fazendo a maior grana
Na beira da praia, bem junto ao céu
Só falta descolar outro cliente e um papel
Eu sou do Planet Copacabana, ah
E pra você eu to fazendo a 80 essa semana
16 aninhos de puro prazer!
Eu faço de um tudo, o que é que vai querer?
Copacabana
Aqui no Planet, no Planet Copacabana
Copacabana ...
Aqui nesse planeta bem pertinho do mar
Ainda sobra muito tempo pra gente sonhar
Qualquer dia, num programa, ainda vou encontrar
Um gringo cheio do "din-din" que vai, por mim, se apaixonar
Me levar pro seu país e, comigo, se casar
Vou ter um filho de olho azul e muito "money" pra gastar
Ou então fazendo a vida, vou juntar meu pé-de-meia
Pra poder me aposentar quando eu 'tiver mais velha e feia!
Eu sou do Planet Copacabana, ah
E a princesinha do mar tá fazendo a maior grana
a beira da praia, bem junto ao céu
Só falta descolar outro cliente e um papel
Eu sou do Planet Copacabana, ah
E pra você eu to fazendo a 50 essa semana
22 aninhos de puro prazer!
Eu faço de um tudo, pra poder viver!
Copacabana
Aqui no Planet, no Planet Copacabana
Copacabana...
Mas aqui nesse planeta bem pertinho do mar
A maré não ta pra peixe, já não dá pra faturar
To com "28" e já to meio caída
E o dinheiro não ta dando pra pagar a cocaína
Moro numa vaga, já há 12 anos
Mas viciada não consigo juntar nada do que eu ganho
O carro já não pára, tem em cada esquina
Uma garota de 14 que é a nova princesinha
De Copacabana
Aqui no Planet, no Planet Copacabana, ah
De Copacabana ...
E a princesinha do mar tá fazendo a maior grana
Na beira da praia, bem junto ao céu
Só falta descolar outro cliente e um papel
Eu sou do Planet Copacabana, ah
E pra você eu to fazendo a 25 essa semana
Já não digo a minha idade, já não dou tanto prazer
Mas eu faço de um tudo pra sobreviver
Copacabana
Aqui no Planet, no Planet Copacabana...
(Bia Pontes)
Música do Filme Copacabana Direção Carla Camurati

sábado, 21 de agosto de 2010

Tempo de Travessia

Foto by Foguinho


Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viver é correr o risco

Tim Holter


Rir é correr risco de parecer tolo.
Chorar é correr o risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr o risco de se envolver.
Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu.
Defender seus sonhos e idéias diante da multidão é correr o risco de perder as pessoas.
Amar é correr o risco de não ser correspondido.
Viver é correr o risco de morrer.
Confiar é correr o risco de se decepcionar.
Tentar é correr o risco de fracassar.
Mas os riscos devem ser corridos, porque o maior perigo é não arriscar nada.
Há pessoas que não correm nenhum risco, não fazem nada, não têm nada e não são nada.
Elas podem até evitar sofrimentos e desilusões, mas elas não conseguem nada, não sentem nada, não mudam, não crescem, não amam, não vivem.
Acorrentadas por suas atitudes, elas viram escravas, privam-se de sua liberdade. Somente a pessoa que corre riscos é livre!


Seneca (orador romano)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Capitu


De um lado vem você com seu jeitinho

Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista com seu dom
De outro esse seu site petulante

www
Ponto
Poderosa ponto com
É esse o seu modo de ser ambíguo

Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar
Você é virtualmente amada amante

Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir que é tão astuto

Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular
Capitu

A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu
No site o seu poder provoca o ócio, o ócio

Um passo para o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar
Capitu

Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu

(Luiz Tatit)

Nestrovski, Tatit & Wisnik - Capitu





Capitu (Luiz Tatit)



Músicos: Luiz Tatit (violão e voz), Zé Miguel Wisnik (piano e voz)
Arthur Nestrovski (violão), Celso Sim (voz) , Jonas Tatit (violão 7 cordas)
Sérgio Reze (bateria e percussão), Marcelo Jeneci (teclado e sanfona) e Márcio Arantes (contrabaixo)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Extremos da Paixão




Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal.
Mentira: compreendo, sim.
Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó.
O que ou quem cruzo esses dois portos gelados da solidão é vera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o eterno do perecível, loucos.

(Caio Fernando Abreu)

sábado, 31 de julho de 2010

Vem lutar comigo num corpo a corpo


Ouse, ouse... ouse tudo!!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,nem queira você mesmo
ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida,aprenda ... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo!
Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio,mas algo de bem mais maravilhoso:algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!
Quem pois, dominado por ti, poderá escapar,se sentiu teu grave olhar voltado para ele?
Eu não fugirei, se me apanhas
jamais crerei que só fazes destruir!
Entretanto tu também, mereces ser vivida!
Claro, não és um espectro da noite
Vens lembrar tua força ao espírito: é o combate que engrandece os maiores.
O combate como derradeiro alvo, por caminhos
Por isso, se só podes me ofertar, ó dor.
Em lugar de felicidade e do prazer, a verdadeira grandeza.
Vem lutar comigo, num corpo a corpo
Vem lutar comigo, na vida e na morte
Mergulha no fundo do coração,
Mergulha no mais profundo da vida
Leva para longe o sonho da felicidade e da ilusão
Leva para longe o que não merecia um infindo esforço.
Nunca triunfará verdadeiramente sobre o homem autêntico
Mesmo que ele te ofereça teu peito nu
Mesmo que se aniquilasse, desaparecesse na noite!
És apenas um pedestal para a grandeza do espírito!
No mais profundo de si mesmo, o nosso ser rebela-se em absoluto contra todos os limites.
Os limites físicos são nos tão insuportáveis quantos limites do que nos é psíquicamente possível: não fazem verdadeiramente parte de nós.
Circunscrevem-nos mais estreitamente do que desejaríamos.
(Lou Salomé)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Dedicado a Você




Vem,
Se eu tiver você no meu prazer
Se pudesse ficar com você
Todo o momento, em qualquer lugar
Ah!
Se no desejo você fosse o amor
Durante o frio fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar
Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui!
Ah! Se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar, e eu
Completamente ia ser feliz!


(Dominguinhos e Nando Cordel)

domingo, 11 de julho de 2010

Sou música alta e silêncio



Não me prendo a nada que me defina.
Sou companhia, mas posso ser solidão.
Tranqüilidade e inconstância, pedra e coração.
Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono.
Música alta e silêncio.
Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Não me limito, não sou cruel comigo!
Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer… Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. ou toca, ou não toca.

(Clarice Lispector)

sábado, 26 de junho de 2010

Igual - Desigual


Eu desconfiava:
Todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais

Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais.
E todos, todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
Impar.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Meu Amor

Foto Helmut Newton


O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz...

(Chico Buarque)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Niver e Samba

Foto by Aline Ferraz


Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim
O grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão
Pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel
O grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua de mel
Em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé
No grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira...


(Samba do Grande Amor - Chico Buarque)

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Violão




Um dia eu vi numa estrada
Um arvoredo caído
Não era um tronco qualquer
Era madeira de pinho
E um artesão esculpia
O corpo de uma mulher
Depois eu vi
Pela noite
O artesão nos caminhos
Colhendo raios de lua
Fazia cordas de prata
Que, se esticadas, vibravam
O corpo da mulher nua
E o artesão, finalmente
Nesta mulher de madeira
Botou o seu coração
E lhe apertou contra o peito
E deu-lhe nome bonito
E assim nasceu o violão.

(Sueli Costa/Paulo César Pinheiro)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Frida

Frida Kahlo



Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.



(Frida Kahlo)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

40 anos



São 40 anos de aventuras
Desde que mãe teve a doçura
De dar a luz pra esse seu nego
E a vida cheia de candura
Botou canção nesses meus dedos
E me entregou uma partitura
Pra eu tocar o meu enredo
Sei que às vezes quase desatino
Mas esse é o meu jeito latino
Meio Zumbi, Peri, Dom Pedro
Me emociona um violino
Mas também já chorei de medo
Como chorei ouvindo o Hino
Quando morreu Tancredo
Dos 40 anos de aventuras
Só 20 são de ditadura
E eu dormi, peguei no sono,
E acordei no abandono
meu país tava sem dono
E eu fora da lei
Me apaixonei por Che Guevara
Quase levei tapa na cara,
Melhor é mudar de assunto
"Vamo" enterrar esse defunto
Melhor lembrar de "Madalena"
De Glauber Rocha no cinema
Das cores desse mundo
Jimmy, Janis Joplin e John Lennon
Meu Deus, o mundo era pequeno
E eu curtia no sereno
Gonzaguinha e Nascimento
O novo renascimento
Que o galo cantava
"Ava Canoeiro", "Travessia" Zumbi no "Opinião"sorria,
De Elis surgia uma estrela
Comprei ingressos só pra vê-la
Levei a minha namorada
Com quem casei na "Disparada"
Só para não perdê-la
Lavei com meu pranto os desatinos
Pra conversar com meus meninos
Sobre heróis da liberdade
De Agostinho de Luanda
A Buarque de Holanda
Foram sóis na tempestade
Mesmo escondendo tristes fatos
Curti o tricampeonato
Porque também sou batuqueiro
Como eu nasci em fevereiro
O carnaval tá no meu sangue
Sou dos palácios, sou do mangue,
Enfim sou brasileiro
Hoje o que está valendo a pena
É correr a mil com Ayrton Senna
Cantar com o primeiro do mundo
Que sentimento profundo
Tem esse Milton Nascimento
E que mulher forte e danada
É a tal de Sônia Braga
Eu sou Fittipaldi, eu sou Hortência
Dou de lambuja a minha vidência
Não conheço maior fé
Que a de Chico Xavier
Que para Deus já é Pelé
Que é o nosso rei da bola
Rola essa pelota companheira
Judô pra que se a capoeira
Pode dar tombo em capataz
Mandinga,dou pra satanás
Se a Broadway conhecer Mangueira
Bumba meu boi, na alma estrangeira
Primeiro mundo, samba
Quem tem Raoni, tem Amazônia
Se está sofrendo de insônia
É por que tem cabeça fraca
Ou está deitado eternamente
Em berço esplêndido, ou é babaca,
Ou tá mamando nessa vaca
O leite dos inocentes
Vamos terminar nosso sambinha
Vamos cantar juntos meu povo
Primeiro romper a galinha
Depois que ela botar o ovo
É só quebrar essa casquinha
Então nos transformar em pinto novo
Depois de grande virar galo de rinha
Vamos ensaiar, oh... minha gente,
Levar nosso Brasil pra frente...

(Altay Veloso/Paulo César Feital)
PS.: música na voz de Celso Lago... um luxooo!!!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Amigos





Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

(A Lista - Oswaldo Montenegro)

sábado, 29 de maio de 2010

Súplica



O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
E ilumina a gente além da morte
Vem a mim, ó música!
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Vem a mim, ó música!
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já
Sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz

(João Nogueira/Paulo César Pinheiro)

terça-feira, 25 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Veríssimo



Dez Coisas que Levei Anos Para Aprender

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.
2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.
3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.
4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.
5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.
6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.
7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".
8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".
9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.
10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

(Luís Fernando Veríssimo)

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Mais Bonita!

Marilyn exalando sensualidade ...


Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras
penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei...

(Chico Buarque)

domingo, 2 de maio de 2010

Um novo amor chegou


Zé Renato

Um novo amor chegou
Azulando meu peito na barra do dia
Dissolvendo o sereno da melancolia
Reabrindo o botão milagroso da flor
Um novo amor chegou

Enchugando meu pranto no vento da tarde
Carregando a lembrança, a tristeza, a saudade
Apagando em minh'alma o vestígio da dor
Um novo amor chegou

Acendendo meu corpo na boca da noite
Perfumando meu ventre na água da fonte
Clareando em meus olhos a luz e a cor
Um novo amor chegou

Me levando em silêncio pela madrugada
Eu só quero seguir seu caminho na estrada
E dormir na morada do meu novo amor
Um novo amor chegou, iluminou

Como o clarão da aurora
Beijou meu coração, adormeceu
E não vai mais embora...


(Wilson das Neves/Paulo César Pinheiro)

PS.: foto do site www.zerenato.com.br , grande intérprete que lindamente gravou essa música.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Citações - Oscar Wilde




A vida é muito importante para ser levada a sério.

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela, também.

Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência.

Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.

O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.

É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.

As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.

Não deixe de perdoar os seus inimigos - nada os aborrece tanto.

O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror.

A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo.

As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro e as mulheres que têm passado.

Tenho gostos extremamente simples: somente o melhor me satisfaz .

(Oscar Wilde)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Moça do Sonho

Lígia " A Moça do sonho de Rafael"


Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó
Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu
Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais...

(Chico Buarque/Edu Lobo)

PS.: Para Rafael que encontrou a "Moça" de eu sonho ... Lígia!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Malandro não cai, nem escorrega ...



Cena da peça "Ópera do Malandro" Chico Buarque


"Meu terno branco
linho S 120
foi cortado com requinte pelo meu alfaiate inglês.
Camisa de seda pura
pescoço desocupado
bigode bem aparado
um lado de cada vez.
Pisante de duas cores
mas feito sob encomenda
para que a oposição entenda que a maré pra mim tá boa.
Não é à toa
que uso esse chapéu quebrado
para defender o telhado da friagem da garoa.
Chego assim mais esticado do que coro de cuíca,
que a primeira impressão é que fica
e eu chego querendo ficar.
Não sou malandro, porque malandro é de morte,
estou no mundo por esporte
só quero o leite e o mel.
Não sou malandro mas tenho o meu santo forte,
sou um otário com sorte,
sou zona norte,
sou Vila Isabel."

(Pedro Amorim )

PS.: poema no disco "A Alegria Continua" - Elton Medeiros, Mariana Moraes e Zé Renato)
Para meu Pai que não era malandro, mas boêmio e usou terno branco de linho... que me apresentou a musica, a noite e seus encantos!

sábado, 27 de março de 2010

Amar muito quando é permitido

Billie Holiday



... Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda.
Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo.
De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito.
E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira.
Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças.
Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel...

(Caio Fernando Abreu)

sábado, 20 de março de 2010

Poema da Saudade

Le Voyeur - José Barbosa


Em alguma outra vida, devemos ter feito algo muito grave, para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta doí.
Bater o queixo no chão doí.
Doí morder a língua, cólica doí, doí torcer o tornozelo.
Doí bater a cabeça na quina da mesa, cárie doí, pedras nos rins também doí.
Mas o que mais doí é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma brincadeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós mesmo, o tempo não perdoa.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a trabalho, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar sem vê-lo, e ele sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o Amor de um acaba, ou torna-se menor no outro.
Sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Se aprendeu a entrar na internet, se aprendeu a ter calma no trânsito.
Se continua preferindo cerveja a uísque (e qual a cerveja)
Se continua sorrindo com aqueles olhos apertados , e que sorriso lindo.
Será que ele continua cantando aquelas mesmas musicas tão bem (ao menos eu admirava)?
Será que ele continua fumando e se continua adorando Mac Donald's?
Será que ele continua não amando os livros, e ela cada vez mais?
E continua não gostando de dar longas caminhadas, e ela não assistindo televisão?
Será que ele continua gostando de filmes de ação, e ela de chorar em comédias.
Será que ela continua lendo os livros que já leu?
Será que ele continua tossindo cada vez que fuma?
Saber é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos, não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ele está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se Ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti (e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria)provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.
Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade!

(Martha Medeiros)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Flores

Foto Fundação Helmut Newton (Monica Bellucci)



Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosa brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cores de rosas são em geral mais carnudas e tem a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.Preste atenção e é um favor: estou convidando você a mudar-se para um reino novo.Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza.Os brancos lembram o caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela?O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho que é masculina.A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase não perfume é glória abafada, mas exige da gente que o busque. Não grita nunca seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro.A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele .Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil. A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é expontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.Flor dos trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa os ramos de trigo. É um pequeno coração batendo. Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra a hóstia. Muitos tem vontade de come-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.O jasmim é dos namorados. Dá vontade de por reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jardim.Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. Só que não espera pela aurora.A violência de tua beleza.Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com seu cheiro tonteador.Dama-da-noite é silente.E também da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas.É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém aguenta. Mas eu aguento porque amo o perigo. Quanto à suculenta flor de cáctus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o explendor nascendo da esterilidade despótica.Estou com preguiça de falar da edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentros metros de altitude. É branca e lanosa.Raramente alcançável: é a aspiração.Gerânio é flor de canteiro de janela.Encontra-se em São Paulo no bairro do Grajaú e na Suíça. Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico:o dinossauro das flores. Espalham grande tranquilidade.A um tempo majestosas e simples. E apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim:de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.Acho que vou ter que pedir licença para morrer. Mas não posso, é tarde demais. Ouvi o Pássaro de Fogo - e afoguei-me inteira.Tenho que interromper porque - eu não disse? Eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo.


(Clarice Lispector)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Não entender



lindos olhos de Chico Buarque



Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

(Clarice Lispector)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Existe um ser que mora dentro de mim ...

Foto by Izan Petterle


“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é.
Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão.
Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez”.


(Clarice Lispector In Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Primavera

Foto by Gigio (Lígia e Rafael)


O meu amor sozinho é assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela como é triste se sentir saudade
É que eu gosto tanto dela que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde
Estrela, eu lhe diria, desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para nunca mais morrer
Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
É um encanto que não tem mais fim
E no entanto ele nem sabe que isso existe
E é tão triste se sentir saudade
Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ai quem me dera eu pudesse ser
A sua primavera e depois morrer...


(Carlos Lyra/Vinícius de Moraes)
PS.: foto casamento minha filha Lígia e Rafael (dez/09)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Altos e Baixos

Elis Regina


Foi, quem sabe, esse disco
Esse risco de sombra em teus cílios
Foi ou não meu poema no chão
Ou talvez nossos filhos
As sandálias de saltos tão altos
O relógio batendo, o sol posto, o relógio
As sandálias, e eu bantendo em teu rosto
E a queda dos saltos tão altos
Sobre os nossos filhos
Com um raio de sangue no chão
Do risco em teus cílios
Foram discos demais, desculpas demais
Já vão tarde essas tardes e mais tuas aulas
Meu táxi, whisky, Dietil, Dienpax
Ah, mas há que se louvar entre altos e baixos
O amor quando traz tanta vida
Que até prá morrer
leva tempo demais ...


(Sueli Costa/Aldir Blanc)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Repouso em aparência




No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou ...
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua (Hino à morte)
Quem pois, dominado por ti, poderá escapar,
Se sentiu teu grave olhar voltado para ele?
Eu não fugirei, se me apanhas
Jamais crerei que só fazes destruir!
Entretanto - tu também, mereces ser vivida!
Claro, não és um espectro da noite
Vens lembrar tua força ao espírito:
É o combate que engrandece os maiores,
O combate como derradeiro alvo, por caminhos
Por isso, se só podes me ofertar, ó dor,
Em lugar de felicidade e do prazer, a verdadeira grandeza,
Vem lutar comigo, num corpo a corpo,
Vem lutar comigo, na vida e na morte
Mergulha no fundo do coração,
Mergulha no mais profundo da vida,
Leva para longe o sonho da felicidade e da ilusão
Leva para longe o que não merecia um infindo esforço.
Nunca triunfará verdadeiramente sobre o homem autêntico
Mesmo que ele te ofereça teu peito nu
Mesmo que se aniquilasse, desaparecesse na noite!
És apenas um pedestal para a grandeza do espírito!


(Lou Salomé)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Morte Absoluta

Foto: Maria Perez (1000 imagens)


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

(Manuel Bandeira)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desafio ...

Isadora Duncan


Viver em sociedade é um desafio, porque ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser e do nosso não-ser.

Quero dizer com isso que temos, no minimo, duas personalidades. A objetiva que todas ao nosso redor conhece. e a subjetiva, em alguns momentos, está se mostra tão misteriosa que se perguntarmos. Quem somos? Não saberemos ao certo!! Mas de uma coisa eu tenho certeza, devemos ser autênticos sempre, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser. Aqui reside o eterno conflito entre a aparência x essência.

E você... o acha disso?

Que desafio hein?

" Nunca sofra por não ser uma coisa, ou por sê-la! "


(Clarice Lispector)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pai ...seu aniversário...

Hector Carybé


Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio
O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço
Trago não traço, faço não caço
O amor da morena maldita do Largo do Estácio
Fico manso, amanso a dor
Holliday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor


(Luiz Melodia)
PS.: sempre falava que gostava dessa música, nos deixou antes dessa data, receba meus bons pensamentos e carinho...