sábado, 26 de junho de 2010

Igual - Desigual


Eu desconfiava:
Todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais

Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais.
E todos, todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
Impar.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Meu Amor

Foto Helmut Newton


O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz...

(Chico Buarque)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Niver e Samba

Foto by Aline Ferraz


Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim
O grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão
Pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel
O grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua de mel
Em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé
No grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira...


(Samba do Grande Amor - Chico Buarque)

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Violão




Um dia eu vi numa estrada
Um arvoredo caído
Não era um tronco qualquer
Era madeira de pinho
E um artesão esculpia
O corpo de uma mulher
Depois eu vi
Pela noite
O artesão nos caminhos
Colhendo raios de lua
Fazia cordas de prata
Que, se esticadas, vibravam
O corpo da mulher nua
E o artesão, finalmente
Nesta mulher de madeira
Botou o seu coração
E lhe apertou contra o peito
E deu-lhe nome bonito
E assim nasceu o violão.

(Sueli Costa/Paulo César Pinheiro)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Frida

Frida Kahlo



Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.



(Frida Kahlo)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

40 anos



São 40 anos de aventuras
Desde que mãe teve a doçura
De dar a luz pra esse seu nego
E a vida cheia de candura
Botou canção nesses meus dedos
E me entregou uma partitura
Pra eu tocar o meu enredo
Sei que às vezes quase desatino
Mas esse é o meu jeito latino
Meio Zumbi, Peri, Dom Pedro
Me emociona um violino
Mas também já chorei de medo
Como chorei ouvindo o Hino
Quando morreu Tancredo
Dos 40 anos de aventuras
Só 20 são de ditadura
E eu dormi, peguei no sono,
E acordei no abandono
meu país tava sem dono
E eu fora da lei
Me apaixonei por Che Guevara
Quase levei tapa na cara,
Melhor é mudar de assunto
"Vamo" enterrar esse defunto
Melhor lembrar de "Madalena"
De Glauber Rocha no cinema
Das cores desse mundo
Jimmy, Janis Joplin e John Lennon
Meu Deus, o mundo era pequeno
E eu curtia no sereno
Gonzaguinha e Nascimento
O novo renascimento
Que o galo cantava
"Ava Canoeiro", "Travessia" Zumbi no "Opinião"sorria,
De Elis surgia uma estrela
Comprei ingressos só pra vê-la
Levei a minha namorada
Com quem casei na "Disparada"
Só para não perdê-la
Lavei com meu pranto os desatinos
Pra conversar com meus meninos
Sobre heróis da liberdade
De Agostinho de Luanda
A Buarque de Holanda
Foram sóis na tempestade
Mesmo escondendo tristes fatos
Curti o tricampeonato
Porque também sou batuqueiro
Como eu nasci em fevereiro
O carnaval tá no meu sangue
Sou dos palácios, sou do mangue,
Enfim sou brasileiro
Hoje o que está valendo a pena
É correr a mil com Ayrton Senna
Cantar com o primeiro do mundo
Que sentimento profundo
Tem esse Milton Nascimento
E que mulher forte e danada
É a tal de Sônia Braga
Eu sou Fittipaldi, eu sou Hortência
Dou de lambuja a minha vidência
Não conheço maior fé
Que a de Chico Xavier
Que para Deus já é Pelé
Que é o nosso rei da bola
Rola essa pelota companheira
Judô pra que se a capoeira
Pode dar tombo em capataz
Mandinga,dou pra satanás
Se a Broadway conhecer Mangueira
Bumba meu boi, na alma estrangeira
Primeiro mundo, samba
Quem tem Raoni, tem Amazônia
Se está sofrendo de insônia
É por que tem cabeça fraca
Ou está deitado eternamente
Em berço esplêndido, ou é babaca,
Ou tá mamando nessa vaca
O leite dos inocentes
Vamos terminar nosso sambinha
Vamos cantar juntos meu povo
Primeiro romper a galinha
Depois que ela botar o ovo
É só quebrar essa casquinha
Então nos transformar em pinto novo
Depois de grande virar galo de rinha
Vamos ensaiar, oh... minha gente,
Levar nosso Brasil pra frente...

(Altay Veloso/Paulo César Feital)
PS.: música na voz de Celso Lago... um luxooo!!!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Amigos





Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

(A Lista - Oswaldo Montenegro)

sábado, 29 de maio de 2010

Súplica



O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
E ilumina a gente além da morte
Vem a mim, ó música!
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Vem a mim, ó música!
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já
Sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz

(João Nogueira/Paulo César Pinheiro)

terça-feira, 25 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Veríssimo



Dez Coisas que Levei Anos Para Aprender

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.
2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.
3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.
4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.
5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.
6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.
7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".
8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".
9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.
10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

(Luís Fernando Veríssimo)

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Mais Bonita!

Marilyn exalando sensualidade ...


Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras
penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei...

(Chico Buarque)

domingo, 2 de maio de 2010

Um novo amor chegou


Zé Renato

Um novo amor chegou
Azulando meu peito na barra do dia
Dissolvendo o sereno da melancolia
Reabrindo o botão milagroso da flor
Um novo amor chegou

Enchugando meu pranto no vento da tarde
Carregando a lembrança, a tristeza, a saudade
Apagando em minh'alma o vestígio da dor
Um novo amor chegou

Acendendo meu corpo na boca da noite
Perfumando meu ventre na água da fonte
Clareando em meus olhos a luz e a cor
Um novo amor chegou

Me levando em silêncio pela madrugada
Eu só quero seguir seu caminho na estrada
E dormir na morada do meu novo amor
Um novo amor chegou, iluminou

Como o clarão da aurora
Beijou meu coração, adormeceu
E não vai mais embora...


(Wilson das Neves/Paulo César Pinheiro)

PS.: foto do site www.zerenato.com.br , grande intérprete que lindamente gravou essa música.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Citações - Oscar Wilde




A vida é muito importante para ser levada a sério.

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela, também.

Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência.

Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.

O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.

É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.

As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.

Não deixe de perdoar os seus inimigos - nada os aborrece tanto.

O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror.

A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo.

As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro e as mulheres que têm passado.

Tenho gostos extremamente simples: somente o melhor me satisfaz .

(Oscar Wilde)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Moça do Sonho

Lígia " A Moça do sonho de Rafael"


Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó
Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu
Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais...

(Chico Buarque/Edu Lobo)

PS.: Para Rafael que encontrou a "Moça" de eu sonho ... Lígia!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Malandro não cai, nem escorrega ...



Cena da peça "Ópera do Malandro" Chico Buarque


"Meu terno branco
linho S 120
foi cortado com requinte pelo meu alfaiate inglês.
Camisa de seda pura
pescoço desocupado
bigode bem aparado
um lado de cada vez.
Pisante de duas cores
mas feito sob encomenda
para que a oposição entenda que a maré pra mim tá boa.
Não é à toa
que uso esse chapéu quebrado
para defender o telhado da friagem da garoa.
Chego assim mais esticado do que coro de cuíca,
que a primeira impressão é que fica
e eu chego querendo ficar.
Não sou malandro, porque malandro é de morte,
estou no mundo por esporte
só quero o leite e o mel.
Não sou malandro mas tenho o meu santo forte,
sou um otário com sorte,
sou zona norte,
sou Vila Isabel."

(Pedro Amorim )

PS.: poema no disco "A Alegria Continua" - Elton Medeiros, Mariana Moraes e Zé Renato)
Para meu Pai que não era malandro, mas boêmio e usou terno branco de linho... que me apresentou a musica, a noite e seus encantos!

sábado, 27 de março de 2010

Amar muito quando é permitido

Billie Holiday



... Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda.
Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo.
De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito.
E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira.
Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças.
Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel...

(Caio Fernando Abreu)

sábado, 20 de março de 2010

Poema da Saudade

Le Voyeur - José Barbosa


Em alguma outra vida, devemos ter feito algo muito grave, para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta doí.
Bater o queixo no chão doí.
Doí morder a língua, cólica doí, doí torcer o tornozelo.
Doí bater a cabeça na quina da mesa, cárie doí, pedras nos rins também doí.
Mas o que mais doí é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma brincadeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós mesmo, o tempo não perdoa.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a trabalho, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar sem vê-lo, e ele sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o Amor de um acaba, ou torna-se menor no outro.
Sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Se aprendeu a entrar na internet, se aprendeu a ter calma no trânsito.
Se continua preferindo cerveja a uísque (e qual a cerveja)
Se continua sorrindo com aqueles olhos apertados , e que sorriso lindo.
Será que ele continua cantando aquelas mesmas musicas tão bem (ao menos eu admirava)?
Será que ele continua fumando e se continua adorando Mac Donald's?
Será que ele continua não amando os livros, e ela cada vez mais?
E continua não gostando de dar longas caminhadas, e ela não assistindo televisão?
Será que ele continua gostando de filmes de ação, e ela de chorar em comédias.
Será que ela continua lendo os livros que já leu?
Será que ele continua tossindo cada vez que fuma?
Saber é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos, não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ele está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se Ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti (e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria)provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.
Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade!

(Martha Medeiros)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Flores

Foto Fundação Helmut Newton (Monica Bellucci)



Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosa brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cores de rosas são em geral mais carnudas e tem a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.Preste atenção e é um favor: estou convidando você a mudar-se para um reino novo.Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza.Os brancos lembram o caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela?O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho que é masculina.A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase não perfume é glória abafada, mas exige da gente que o busque. Não grita nunca seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro.A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele .Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil. A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é expontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.Flor dos trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa os ramos de trigo. É um pequeno coração batendo. Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra a hóstia. Muitos tem vontade de come-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.O jasmim é dos namorados. Dá vontade de por reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jardim.Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. Só que não espera pela aurora.A violência de tua beleza.Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com seu cheiro tonteador.Dama-da-noite é silente.E também da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas.É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém aguenta. Mas eu aguento porque amo o perigo. Quanto à suculenta flor de cáctus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o explendor nascendo da esterilidade despótica.Estou com preguiça de falar da edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentros metros de altitude. É branca e lanosa.Raramente alcançável: é a aspiração.Gerânio é flor de canteiro de janela.Encontra-se em São Paulo no bairro do Grajaú e na Suíça. Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico:o dinossauro das flores. Espalham grande tranquilidade.A um tempo majestosas e simples. E apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim:de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.Acho que vou ter que pedir licença para morrer. Mas não posso, é tarde demais. Ouvi o Pássaro de Fogo - e afoguei-me inteira.Tenho que interromper porque - eu não disse? Eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo.


(Clarice Lispector)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Não entender



lindos olhos de Chico Buarque



Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

(Clarice Lispector)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Existe um ser que mora dentro de mim ...

Foto by Izan Petterle


“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é.
Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão.
Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez”.


(Clarice Lispector In Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Primavera

Foto by Gigio (Lígia e Rafael)


O meu amor sozinho é assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela como é triste se sentir saudade
É que eu gosto tanto dela que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde
Estrela, eu lhe diria, desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para nunca mais morrer
Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
É um encanto que não tem mais fim
E no entanto ele nem sabe que isso existe
E é tão triste se sentir saudade
Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ai quem me dera eu pudesse ser
A sua primavera e depois morrer...


(Carlos Lyra/Vinícius de Moraes)
PS.: foto casamento minha filha Lígia e Rafael (dez/09)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Altos e Baixos

Elis Regina


Foi, quem sabe, esse disco
Esse risco de sombra em teus cílios
Foi ou não meu poema no chão
Ou talvez nossos filhos
As sandálias de saltos tão altos
O relógio batendo, o sol posto, o relógio
As sandálias, e eu bantendo em teu rosto
E a queda dos saltos tão altos
Sobre os nossos filhos
Com um raio de sangue no chão
Do risco em teus cílios
Foram discos demais, desculpas demais
Já vão tarde essas tardes e mais tuas aulas
Meu táxi, whisky, Dietil, Dienpax
Ah, mas há que se louvar entre altos e baixos
O amor quando traz tanta vida
Que até prá morrer
leva tempo demais ...


(Sueli Costa/Aldir Blanc)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Repouso em aparência




No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou ...
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua (Hino à morte)
Quem pois, dominado por ti, poderá escapar,
Se sentiu teu grave olhar voltado para ele?
Eu não fugirei, se me apanhas
Jamais crerei que só fazes destruir!
Entretanto - tu também, mereces ser vivida!
Claro, não és um espectro da noite
Vens lembrar tua força ao espírito:
É o combate que engrandece os maiores,
O combate como derradeiro alvo, por caminhos
Por isso, se só podes me ofertar, ó dor,
Em lugar de felicidade e do prazer, a verdadeira grandeza,
Vem lutar comigo, num corpo a corpo,
Vem lutar comigo, na vida e na morte
Mergulha no fundo do coração,
Mergulha no mais profundo da vida,
Leva para longe o sonho da felicidade e da ilusão
Leva para longe o que não merecia um infindo esforço.
Nunca triunfará verdadeiramente sobre o homem autêntico
Mesmo que ele te ofereça teu peito nu
Mesmo que se aniquilasse, desaparecesse na noite!
És apenas um pedestal para a grandeza do espírito!


(Lou Salomé)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Morte Absoluta

Foto: Maria Perez (1000 imagens)


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

(Manuel Bandeira)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desafio ...

Isadora Duncan


Viver em sociedade é um desafio, porque ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser e do nosso não-ser.

Quero dizer com isso que temos, no minimo, duas personalidades. A objetiva que todas ao nosso redor conhece. e a subjetiva, em alguns momentos, está se mostra tão misteriosa que se perguntarmos. Quem somos? Não saberemos ao certo!! Mas de uma coisa eu tenho certeza, devemos ser autênticos sempre, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser. Aqui reside o eterno conflito entre a aparência x essência.

E você... o acha disso?

Que desafio hein?

" Nunca sofra por não ser uma coisa, ou por sê-la! "


(Clarice Lispector)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pai ...seu aniversário...

Hector Carybé


Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio
O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço
Trago não traço, faço não caço
O amor da morena maldita do Largo do Estácio
Fico manso, amanso a dor
Holliday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor


(Luiz Melodia)
PS.: sempre falava que gostava dessa música, nos deixou antes dessa data, receba meus bons pensamentos e carinho...

sábado, 21 de novembro de 2009

Objeto do Amor ...



"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro."


(Lou Salomé)

sábado, 24 de outubro de 2009

Não era amor, era melhor ...


…Se não era amor, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados.
A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não se sabe se vai ser antes ou depois de se chocar contra o solo. Eu bati a 200 km por hora e estou voltando a pé prá casa, avariada.
Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez este seja o ponto. Talvez eu não seja adulta o suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, acreditar em contos de fada, achar que a gente muda o que sente, e que bastaria apertar um botão que as luzes apagariam e eu voltaria a minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu não amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, eram dois travesseiros. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo.
NÃO ERA AMOR, ERA MELHOR”

(Martha Medeiros)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O início do amor ...

Amadeo Modigliani

“O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.”

(Trecho- "A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)

domingo, 18 de outubro de 2009

Leveza ...

Shophie Marceau - filme Anna Karenina

"... Mas, na verdade, será atroz o peso e belo a leveza? O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira."

(trecho do livro " A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tenta esquecer-me ...



Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
(Mário Quintana)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Não me peçam Razões ...

Greta Garbo



Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.


(José Saramago in "Os Poemas Possíveis")

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Angústia

Foto: Blog 1000 Imagens
"Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.
Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.
Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.
Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior."

(Paul Verlaine in "Melancolia" Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Nem vem que não tem!

Foto: Pierre Verger (fonte: Fundação Pierre Verger)



Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de garfo
Que hoje é dia de sopa
Esquenta o ferro
Passa a minha roupa
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundáS
acundim, gundim, gundá!...
Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de escada
Que o incêndio é no porão
Tira o tamanco
Tem sinteco no chão
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...
Nem Vem!
Numa casa de caboclo
Já disseram um é pouco
Dois é bom, três é demais
Nem Vem!
Guarda teu lugar na fila
Todo homem que vacila
A mulher passa prá trás...
Nem Vem
Que Não Tem
Prá virar cinza
Minha brasa demora
Michô meu papo
Mas já vamos embora
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...


(Carlos Imperial - gravação Wilson Simonal)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Canção do Suicida

Cena "Ópera Carmen (Bizet) "



Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me a corda.
Há pouco estava tão preparado e havia já um pouco de eternidade nas minhas entranhas. Estendem-me a colher, esta colher de vida.
Não, quero e já não quero, deixem-me vomitar sobre mim.
Sei que a vida é boa e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue, a mim só me sobe à cabeça.
Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente; compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos preciso agora fazer dieta.

(Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" Tradução:Maria João Costa Pereira)

sábado, 29 de agosto de 2009

Deixa eu comprar doce?


Publicado na edição de 28/08/09 do Jornal Cruzeiro do Sul (caderno Ela - Sabor e Poesia)


Deixa eu comprar doce? Era logo ali. O bar do seu Pagão. Na frente, o do seu Chico, no bairro em que ainda era possível criança atravessar a rua para comprar doce, Vila Fiori. Muitos outros bairros seguiam o mesmo padrão: Vila Angélica, por exemplo, com seu Mateus, um atípico japonês dono de mercearia, semelhante em tudo à do seu Joaquim, este, Português, é claro.
A compra que se fazia com caderneta. As anotações a tinta, somadas para o final do mês. E havia óleo a litro, cujo vasilhame ia de casa para a mercearia. Ouvir o som da bomba e ver a boca do vasilhame na saída do tambor.
A vida era menos dispendiosa; nem se falava em preocupação com a natureza, mas sem querer éramos ecologicamente corretos. O pão vinha embrulhado em papel, que depois se aproveitava para escorrer o óleo da fritura (aquele mesmo do vasilhame, comprado a granel, que não gerava embalagens vazias). O café, coado em coador de pano, pois não havia os de papel para se lançar ao lixo. Tubaína em garrafas retornáveis.
As sementes de abóbora viravam torrado aperitivo, que era, ainda, poderoso vermífugo. Ainda existem lombrigas? Cascas de abacaxi para o suco. E quanto aos doces, delícias simples, também não vinham embaladas. Eram retiradas diretamente do balcão de madeira, com vidro de exposição, minha vitrine preferida. Nela, bala de correntinha e suas embalagens com estampas divertidas, que eu não entendia. Chupar uma a uma, repartir, abrir com dificuldade. E aquelas quase de vidro, sabores diversos, que nos eram dadas com alertas e sermões para o cuidado:
Não vá engolir inteira!!! Essa bala já engasgou trinta crianças. Não converse enquanto chupa. Não mastigue, quebra os dentes. Desobedecer e trincar a bala ruidosamente, ouvir os estalos ampliados. Pagar pra ver a história da criança com a bala atravessada na goela, salva pelo murro do médico nas costas, ai! Quantas crianças desengasgadas por Dr. Nilton, famoso médico sorocabano; e não só por balas, mas até espinhas de peixe que, graças ao doutor, permitiram que uma criança viesse a se tornar deputado, não é mesmo Pannunzio? Balas Juquinha. Jujubas coloridas. Puxar e esticar o pirulito Zorro, que se colava aos dentes de forma vigorosa, para nem conseguir abrir a boca. Cigarrinhos (politicamente incorretos), guarda-chuvas, garrafinhas com licor e moedinhas de chocolate, além dos peixinhos, embrulhados em papel alumínio e colorido.
Chupetas de açúcar. Sanduíches de bolacha com recheio de Maria Mole, ou aquela colorida, na ponta do copinho de sorvete, com brinquedo espetado, indiozinhos e cowboys de plástico e em miniatura, que muita criança comeu junto com o doce.
Era variedade para se experimentar sem repetir por semanas: pé de moleque, doce de abóbora, de batata doce, suspiro, bananada no copinho, Gibi, paçoca de rolha, cocada branca e preta, pipoca doce no saquinho cor-de-rosa.
Outro divertimento era o estranho comestível que em uma panela de óleo quente transformava sua textura e volume, o Mandiopã. As caixinhas com pó para sorvete que o avô fazia. Após congelado, era necessário colocar tudo no liquidificador e bater, bater, bater. Recongelar e bater outra vez. É para ficar cremoso, o avô explicava.
E quando da visita ao Centro, que chamávamos de Cidade, incluía-se no roteiro a padaria em que a tia trabalhava. Lá havia sequilhos, carolinas, sonhos, bombas e mantecais. E além do sorvete americano da padaria Americana, valia um outro, italiano, na porta do Mercado Municipal, que nem gelado era, e que foi provado pela primeira vez no dia em que arranquei um dente. Brigar por ele com as abelhas, que esvoaçavam em volta dos vidros coloridos e ver o líquido que se transformava em espuma quase gelada.
Crescemos assim, em meio a um doce de vez em quando, não sem alguma cárie, mas sem medo da obesidade, do colesterol, da gordura trans, dos radicais livres. Agora me surpreendo, ao tentar chupar um pirulito Zorro e não conseguir chegar nem a um quarto, dado o excesso de doçura. Percebo que meu paladar mudou, assim como as lembranças dos meus doces de infância, melhores que os próprios doces. Mas percebo também que muito da simplicidade cotidiana de nossos avós se perdeu, como o coador de pano, o papel para a fritura e os vasilhames retornáveis, que requerem urgente resgate e crítica de nossa suposta evolução: cultural, tecnológica, econômica e até gastronômica.

Míriam Cris Carlos, doutora em Comunicação, acha que comida é memória e é cultura (micriscarlos@uol.com.br)

sábado, 22 de agosto de 2009

Há palavras para tudo ...



"Felizmente há palavras para tudo.
Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer.
Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos.
Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente.
Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade.
Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça."
(José Saramago -texto retirado do seu blog pessoal)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Censura

Clarice Lispector




Mas quem sou eu para censurar os culpados? O pior é que preciso perdoá-los. É necessário chegar a tal nada que indiferentemente se ame ou não se ame o criminoso que nos mata. Mas não estou seguro de mim mesmo: preciso perguntar, embora não saiba a quem, se devo mesmo amar aquele que me trucida e perguntar quem de vós me trucida. E minha vida, mais forte do que eu, responde que quer porque quer vingança e responde que devo lutar como quem se afoga, mesmo que eu morra depois. Se assim é, que assim seja.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tango de Nancy



Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha
Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim
Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais...
(Edu Lobo/Chico Buarque)

sábado, 25 de julho de 2009

Medo ...

Clarice Lispector


"O medo sempre me guiou para o que eu quero.
E porque eu quero, temo.
Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou.
O medo me leva ao perigo.
E tudo o que eu amo é arriscado.”


(Clarice Lispector)