O corpo a morte leva
A morte benze o espírito
Vem a mim, ó música!

(Luís Fernando Veríssimo)


Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas tem gosto bom na boca - é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosa brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cores de rosas são em geral mais carnudas e tem a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.Preste atenção e é um favor: estou convidando você a mudar-se para um reino novo.Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza.Os brancos lembram o caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela?O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho que é masculina.A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase não perfume é glória abafada, mas exige da gente que o busque. Não grita nunca seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro.A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele .Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil. A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é expontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.Flor dos trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa os ramos de trigo. É um pequeno coração batendo. Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra a hóstia. Muitos tem vontade de come-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.O jasmim é dos namorados. Dá vontade de por reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jardim.Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. Só que não espera pela aurora.A violência de tua beleza.Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com seu cheiro tonteador.Dama-da-noite é silente.E também da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas.É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém aguenta. Mas eu aguento porque amo o perigo. Quanto à suculenta flor de cáctus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o explendor nascendo da esterilidade despótica.Estou com preguiça de falar da edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentros metros de altitude. É branca e lanosa.Raramente alcançável: é a aspiração.Gerânio é flor de canteiro de janela.Encontra-se em São Paulo no bairro do Grajaú e na Suíça. Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico:o dinossauro das flores. Espalham grande tranquilidade.A um tempo majestosas e simples. E apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim:de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.Acho que vou ter que pedir licença para morrer. Mas não posso, é tarde demais. Ouvi o Pássaro de Fogo - e afoguei-me inteira.Tenho que interromper porque - eu não disse? Eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo.
(Clarice Lispector)

Viver em sociedade é um desafio, porque ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser e do nosso não-ser.
Quero dizer com isso que temos, no minimo, duas personalidades. A objetiva que todas ao nosso redor conhece. e a subjetiva, em alguns momentos, está se mostra tão misteriosa que se perguntarmos. Quem somos? Não saberemos ao certo!! Mas de uma coisa eu tenho certeza, devemos ser autênticos sempre, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser. Aqui reside o eterno conflito entre a aparência x essência.
E você... o acha disso?
Que desafio hein?
" Nunca sofra por não ser uma coisa, ou por sê-la! "
(Clarice Lispector)


“O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.”
(Trecho- "A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)
"... Mas, na verdade, será atroz o peso e belo a leveza? O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira."
(trecho do livro " A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
(José Saramago in "Os Poemas Possíveis")
Foto: Blog 1000 Imagens
Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de garfo
Que hoje é dia de sopa
Esquenta o ferro
Passa a minha roupa
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundáS
acundim, gundim, gundá!...
Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de escada
Que o incêndio é no porão
Tira o tamanco
Tem sinteco no chão
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...
Nem Vem!
Numa casa de caboclo
Já disseram um é pouco
Dois é bom, três é demais
Nem Vem!
Guarda teu lugar na fila
Todo homem que vacila
A mulher passa prá trás...
Nem Vem
Que Não Tem
Prá virar cinza
Minha brasa demora
Michô meu papo
Mas já vamos embora
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...
(Carlos Imperial - gravação Wilson Simonal)


Mas quem sou eu para censurar os culpados? O pior é que preciso perdoá-los. É necessário chegar a tal nada que indiferentemente se ame ou não se ame o criminoso que nos mata. Mas não estou seguro de mim mesmo: preciso perguntar, embora não saiba a quem, se devo mesmo amar aquele que me trucida e perguntar quem de vós me trucida. E minha vida, mais forte do que eu, responde que quer porque quer vingança e responde que devo lutar como quem se afoga, mesmo que eu morra depois. Se assim é, que assim seja.
(Clarice Lispector)


"É bonito ver passar o tempo
Eu triste sou calada



A Família - Tarsila do Amaral


No Elevador do Filho de Deus