domingo, 7 de fevereiro de 2010

Altos e Baixos

Elis Regina


Foi, quem sabe, esse disco
Esse risco de sombra em teus cílios
Foi ou não meu poema no chão
Ou talvez nossos filhos
As sandálias de saltos tão altos
O relógio batendo, o sol posto, o relógio
As sandálias, e eu bantendo em teu rosto
E a queda dos saltos tão altos
Sobre os nossos filhos
Com um raio de sangue no chão
Do risco em teus cílios
Foram discos demais, desculpas demais
Já vão tarde essas tardes e mais tuas aulas
Meu táxi, whisky, Dietil, Dienpax
Ah, mas há que se louvar entre altos e baixos
O amor quando traz tanta vida
Que até prá morrer
leva tempo demais ...


(Sueli Costa/Aldir Blanc)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Repouso em aparência




No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou ...
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua (Hino à morte)
Quem pois, dominado por ti, poderá escapar,
Se sentiu teu grave olhar voltado para ele?
Eu não fugirei, se me apanhas
Jamais crerei que só fazes destruir!
Entretanto - tu também, mereces ser vivida!
Claro, não és um espectro da noite
Vens lembrar tua força ao espírito:
É o combate que engrandece os maiores,
O combate como derradeiro alvo, por caminhos
Por isso, se só podes me ofertar, ó dor,
Em lugar de felicidade e do prazer, a verdadeira grandeza,
Vem lutar comigo, num corpo a corpo,
Vem lutar comigo, na vida e na morte
Mergulha no fundo do coração,
Mergulha no mais profundo da vida,
Leva para longe o sonho da felicidade e da ilusão
Leva para longe o que não merecia um infindo esforço.
Nunca triunfará verdadeiramente sobre o homem autêntico
Mesmo que ele te ofereça teu peito nu
Mesmo que se aniquilasse, desaparecesse na noite!
És apenas um pedestal para a grandeza do espírito!


(Lou Salomé)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Morte Absoluta

Foto: Maria Perez (1000 imagens)


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

(Manuel Bandeira)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desafio ...

Isadora Duncan


Viver em sociedade é um desafio, porque ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser e do nosso não-ser.

Quero dizer com isso que temos, no minimo, duas personalidades. A objetiva que todas ao nosso redor conhece. e a subjetiva, em alguns momentos, está se mostra tão misteriosa que se perguntarmos. Quem somos? Não saberemos ao certo!! Mas de uma coisa eu tenho certeza, devemos ser autênticos sempre, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser. Aqui reside o eterno conflito entre a aparência x essência.

E você... o acha disso?

Que desafio hein?

" Nunca sofra por não ser uma coisa, ou por sê-la! "


(Clarice Lispector)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pai ...seu aniversário...

Hector Carybé


Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio
O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço
Trago não traço, faço não caço
O amor da morena maldita do Largo do Estácio
Fico manso, amanso a dor
Holliday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor


(Luiz Melodia)
PS.: sempre falava que gostava dessa música, nos deixou antes dessa data, receba meus bons pensamentos e carinho...

sábado, 21 de novembro de 2009

Objeto do Amor ...



"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro."


(Lou Salomé)

sábado, 24 de outubro de 2009

Não era amor, era melhor ...


…Se não era amor, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados.
A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não se sabe se vai ser antes ou depois de se chocar contra o solo. Eu bati a 200 km por hora e estou voltando a pé prá casa, avariada.
Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez este seja o ponto. Talvez eu não seja adulta o suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, acreditar em contos de fada, achar que a gente muda o que sente, e que bastaria apertar um botão que as luzes apagariam e eu voltaria a minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu não amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, eram dois travesseiros. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo.
NÃO ERA AMOR, ERA MELHOR”

(Martha Medeiros)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O início do amor ...

Amadeo Modigliani

“O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.”

(Trecho- "A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)

domingo, 18 de outubro de 2009

Leveza ...

Shophie Marceau - filme Anna Karenina

"... Mas, na verdade, será atroz o peso e belo a leveza? O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira."

(trecho do livro " A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tenta esquecer-me ...



Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
(Mário Quintana)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Não me peçam Razões ...

Greta Garbo



Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.


(José Saramago in "Os Poemas Possíveis")

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Angústia

Foto: Blog 1000 Imagens
"Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.
Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.
Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.
Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior."

(Paul Verlaine in "Melancolia" Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Nem vem que não tem!

Foto: Pierre Verger (fonte: Fundação Pierre Verger)



Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de garfo
Que hoje é dia de sopa
Esquenta o ferro
Passa a minha roupa
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundáS
acundim, gundim, gundá!...
Nem Vem
Que Não Tem
Nem vem de escada
Que o incêndio é no porão
Tira o tamanco
Tem sinteco no chão
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...
Nem Vem!
Numa casa de caboclo
Já disseram um é pouco
Dois é bom, três é demais
Nem Vem!
Guarda teu lugar na fila
Todo homem que vacila
A mulher passa prá trás...
Nem Vem
Que Não Tem
Prá virar cinza
Minha brasa demora
Michô meu papo
Mas já vamos embora
Eu nesse embalo
Vou botar prá quebrar
Sacudim, sacundá
Sacundim, gundim, gundá!...


(Carlos Imperial - gravação Wilson Simonal)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Canção do Suicida

Cena "Ópera Carmen (Bizet) "



Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me a corda.
Há pouco estava tão preparado e havia já um pouco de eternidade nas minhas entranhas. Estendem-me a colher, esta colher de vida.
Não, quero e já não quero, deixem-me vomitar sobre mim.
Sei que a vida é boa e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue, a mim só me sobe à cabeça.
Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente; compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos preciso agora fazer dieta.

(Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" Tradução:Maria João Costa Pereira)

sábado, 29 de agosto de 2009

Deixa eu comprar doce?


Publicado na edição de 28/08/09 do Jornal Cruzeiro do Sul (caderno Ela - Sabor e Poesia)


Deixa eu comprar doce? Era logo ali. O bar do seu Pagão. Na frente, o do seu Chico, no bairro em que ainda era possível criança atravessar a rua para comprar doce, Vila Fiori. Muitos outros bairros seguiam o mesmo padrão: Vila Angélica, por exemplo, com seu Mateus, um atípico japonês dono de mercearia, semelhante em tudo à do seu Joaquim, este, Português, é claro.
A compra que se fazia com caderneta. As anotações a tinta, somadas para o final do mês. E havia óleo a litro, cujo vasilhame ia de casa para a mercearia. Ouvir o som da bomba e ver a boca do vasilhame na saída do tambor.
A vida era menos dispendiosa; nem se falava em preocupação com a natureza, mas sem querer éramos ecologicamente corretos. O pão vinha embrulhado em papel, que depois se aproveitava para escorrer o óleo da fritura (aquele mesmo do vasilhame, comprado a granel, que não gerava embalagens vazias). O café, coado em coador de pano, pois não havia os de papel para se lançar ao lixo. Tubaína em garrafas retornáveis.
As sementes de abóbora viravam torrado aperitivo, que era, ainda, poderoso vermífugo. Ainda existem lombrigas? Cascas de abacaxi para o suco. E quanto aos doces, delícias simples, também não vinham embaladas. Eram retiradas diretamente do balcão de madeira, com vidro de exposição, minha vitrine preferida. Nela, bala de correntinha e suas embalagens com estampas divertidas, que eu não entendia. Chupar uma a uma, repartir, abrir com dificuldade. E aquelas quase de vidro, sabores diversos, que nos eram dadas com alertas e sermões para o cuidado:
Não vá engolir inteira!!! Essa bala já engasgou trinta crianças. Não converse enquanto chupa. Não mastigue, quebra os dentes. Desobedecer e trincar a bala ruidosamente, ouvir os estalos ampliados. Pagar pra ver a história da criança com a bala atravessada na goela, salva pelo murro do médico nas costas, ai! Quantas crianças desengasgadas por Dr. Nilton, famoso médico sorocabano; e não só por balas, mas até espinhas de peixe que, graças ao doutor, permitiram que uma criança viesse a se tornar deputado, não é mesmo Pannunzio? Balas Juquinha. Jujubas coloridas. Puxar e esticar o pirulito Zorro, que se colava aos dentes de forma vigorosa, para nem conseguir abrir a boca. Cigarrinhos (politicamente incorretos), guarda-chuvas, garrafinhas com licor e moedinhas de chocolate, além dos peixinhos, embrulhados em papel alumínio e colorido.
Chupetas de açúcar. Sanduíches de bolacha com recheio de Maria Mole, ou aquela colorida, na ponta do copinho de sorvete, com brinquedo espetado, indiozinhos e cowboys de plástico e em miniatura, que muita criança comeu junto com o doce.
Era variedade para se experimentar sem repetir por semanas: pé de moleque, doce de abóbora, de batata doce, suspiro, bananada no copinho, Gibi, paçoca de rolha, cocada branca e preta, pipoca doce no saquinho cor-de-rosa.
Outro divertimento era o estranho comestível que em uma panela de óleo quente transformava sua textura e volume, o Mandiopã. As caixinhas com pó para sorvete que o avô fazia. Após congelado, era necessário colocar tudo no liquidificador e bater, bater, bater. Recongelar e bater outra vez. É para ficar cremoso, o avô explicava.
E quando da visita ao Centro, que chamávamos de Cidade, incluía-se no roteiro a padaria em que a tia trabalhava. Lá havia sequilhos, carolinas, sonhos, bombas e mantecais. E além do sorvete americano da padaria Americana, valia um outro, italiano, na porta do Mercado Municipal, que nem gelado era, e que foi provado pela primeira vez no dia em que arranquei um dente. Brigar por ele com as abelhas, que esvoaçavam em volta dos vidros coloridos e ver o líquido que se transformava em espuma quase gelada.
Crescemos assim, em meio a um doce de vez em quando, não sem alguma cárie, mas sem medo da obesidade, do colesterol, da gordura trans, dos radicais livres. Agora me surpreendo, ao tentar chupar um pirulito Zorro e não conseguir chegar nem a um quarto, dado o excesso de doçura. Percebo que meu paladar mudou, assim como as lembranças dos meus doces de infância, melhores que os próprios doces. Mas percebo também que muito da simplicidade cotidiana de nossos avós se perdeu, como o coador de pano, o papel para a fritura e os vasilhames retornáveis, que requerem urgente resgate e crítica de nossa suposta evolução: cultural, tecnológica, econômica e até gastronômica.

Míriam Cris Carlos, doutora em Comunicação, acha que comida é memória e é cultura (micriscarlos@uol.com.br)

sábado, 22 de agosto de 2009

Há palavras para tudo ...



"Felizmente há palavras para tudo.
Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer.
Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos.
Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente.
Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade.
Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça."
(José Saramago -texto retirado do seu blog pessoal)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Censura

Clarice Lispector




Mas quem sou eu para censurar os culpados? O pior é que preciso perdoá-los. É necessário chegar a tal nada que indiferentemente se ame ou não se ame o criminoso que nos mata. Mas não estou seguro de mim mesmo: preciso perguntar, embora não saiba a quem, se devo mesmo amar aquele que me trucida e perguntar quem de vós me trucida. E minha vida, mais forte do que eu, responde que quer porque quer vingança e responde que devo lutar como quem se afoga, mesmo que eu morra depois. Se assim é, que assim seja.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tango de Nancy



Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha
Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim
Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais...
(Edu Lobo/Chico Buarque)

sábado, 25 de julho de 2009

Medo ...

Clarice Lispector


"O medo sempre me guiou para o que eu quero.
E porque eu quero, temo.
Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou.
O medo me leva ao perigo.
E tudo o que eu amo é arriscado.”


(Clarice Lispector)

sábado, 18 de julho de 2009

Resumo ...


"A todos trato muito bem
sou cordial, educada, quase sensata,
mas nada me dá mais prazer
do que ser persona non grata
expulsa do paraiso
uma mulher sem juízo,
que não se comove
com nada
cruel e refinada
que não merece ir pro céu,
uma vilã de novela
mas bela, e até mesmo culta
estranha, com tantos amigos
e amada, bem vestida e respeitada
aqui entre nós
melhor que ser boazinha é não poder ser imitada."
(Martha Medeiros)

sábado, 11 de julho de 2009

Corsário do Rei

"É bonito ver passar o tempo
Ele já foi meu
Ele já foi meu
Já usou meu corpo
Ele abusou de mim
Será que me esqueceu ...
Será que me esqueceu ...
Tive grandes planos
Sonhos geniais
Eu já tive vinte anos
Pois agora eu tenho mais
Tenho sete mares
Mortes, mais de cem
Já rendi uma cidade
Agora eu quero bem
Mil e um amores
Cheiro de mulher
Mamas de todas as cores
Mamarei enquanto houver
Garrafões de vinho
Caldeirões de rum
Se ficarem no caminho
Não vai sobrar nenhum
Nem um louco pra cantar as minhas glórias
Nem um fraco, a minha perdição
Nem as águas
As memórias
Da trajetória do meu galeão
Galeões de Espanha
Ide ao vosso rei
Ele sabe a minha sanha
Mencionai-lhe que eu voltei
Preparar a tropa
Almirante inglês
Já montei vossa chalupa
Desmonto dessa vez
Quero bandalheira
Esfregar os pés
Já sujei vossa bandeira
Mijarei vosso convés
Destroçar os panos
Quero bacanais
Eu já tive vinte anos
Agora eu quero mais ..."
(Corsário do Rei - Edu Lobo/Chico Buarque)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Eu triste sou calada ...

Eu triste sou calada
Eu brava sou estúpida
Eu lúcida sou chata
Eu gata sou esperta
Eu cega sou vidente
Eu carente sou insana
Eu malandra sou fresca
Eu seca sou vazia
Eu fria sou distante
Eu quente sou oleosa
Eu prosa sou tantas
Eu santa sou gelada
Eu salgada sou crua
Eu pura sou tentada
Eu sentada sou alta
Eu jovem sou donzela
Eu bela sou fútil
Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua.
(Martha Medeiros)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um dia, um Adeus ...


Só você prá dar
A minha vida direção
O tom, a cor
Me fez voltar a ver a luz
Estrela no deserto a me guiar
Farol no mar, da incerteza...
Um dia um adeus
E eu indo embora
Quanta loucura
Por tão pouca aventura...
Agora entendo
Que andei perdido
O que é que eu faço
Prá você me perdoar...
Ah! que bom seria
Se eu pudesse te abraçar
Beijar, sentir
Como a primeira vez
Te dar o carinho
Que você merece ter
E eu sei te amar
Como ninguém mais...
Ninguém mais
Como ninguém
Jamais te amou
Ninguém jamais te amou
Te amou...
Como eu, como eu...
(Um dia, um Adeus - Guilherme Arantes)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Espanhola



Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla.
Ei-lo ao rés do chão, irado,a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Dançarina Espanhola (Rainer Maria Rilke)

terça-feira, 17 de março de 2009

Aquele outro não via ...




Aquele Outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava.
Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma
Fome irada e obsessiva?

E por que haverias de querer...

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.
(Hilda Hilst)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A Serenata

Foto: by Foguinho


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Não quero amigos adultos ...


"Escolho meus amigos não pela pele ou outro 'arquétipo' qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
(Oscar Wilde)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Todas as Vidas ...

A Família - Tarsila do Amaral

"Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda, desabusada,
sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.
Vive dentro de mim a mulher roceira.
– Enxerto da terra, meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim a mulher da vida.
Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida – a vida mera das obscuras."
(Cora Coralina)

domingo, 28 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo ...



Queridos Amigos, um ótimo 2009!!!
Melhor ainda com as palavras do poeta ...

Receita de Ano Novo
Carlos Drummond de Andrade


"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? /passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

domingo, 30 de novembro de 2008

Vem ...



Vem! Não te vás agora desta minha vida
preciso de ti como o poeta triste
que encontrou de repente a ilusão perdida,
agarra-se a ela pede e insiste: Fique!
Aqui sem ti é tudo frio
eu sinto na alma terrível nostalgia
e o mundo inteiro fica tão vazio!
Não te vás embora
desta minha vida agora!
Minha alma implora e não desiste
fique, que sem ti
serão esfarrapadas e tristes
todas as minhas poesias!
Fique, que trazes com tua presença
toda emoção que eu tanto necessito!
Fique, por Deus, eu repito
que durante tua ausência
de dor e de saudade eu não resisto!
Saiba... eu tenho bem guardadas
um punhado de rimas para te ofertar
mas, são palavras tão apaixonadas
que só ao teu ouvido poderei falar!
(Cassandra Rios)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mistérios



Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar
Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio pra te navegar
Vida breve, natureza
Quem mandou, coração?
Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo
pra te ensinar...
(Joyce/Maurício Maetro)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Há dores que eu sinceramente não resolvo!

No Elevador do Filho de Deus
Elisa Lucinda

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer
depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não
me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala
nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara
poeta ressuscitada
passaporte sem mala
com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já to ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
corta os cabelos
muda a maquiagem
reinventa modelos
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida.
(www.escolalucinda.com.br)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Verdades e Mentiras

Responda depressa quem se acha esperto
Quem sabe de tudo que é certo na vida
Porque que a cara feroz da mentira nos pode trazer tanta felicidade
Porque que na hora da grande verdade às vezes o povo se esconde se esquece
Verdade....esconde esconde, jogo de esconde esconde tudo se esconderá
Mentira.... esconde esconde, jogo de esconde esconde tudo se esconderá
Verdade, mentira
Verdade ou mentira
Às vezes é sua inimiga a verdade
Às vezes é sua aliada a mentira
Aquilo que a vida nos dá e nos tira
Não anda de braços com a sinceridade
Por onde será que é mais curto o caminho
Qual deles mais sobre
Qual deles mais desce
Verdade....esconde esconde, jogo de esconde esconde tudo se esconderá
Mentira.... esconde esconde, jogo de esconde esconde tudo se esconderá
Verdade, mentira
Verdade ou mentira
Tem gente que jura que a vida é virtude
Tem gente que faz o bem por falsidade
Não há no universo uma força que mude
O dom da mentira, o som da verdade
A lábia do sábio, a arma do rude
São Deus e o Diabo unidos na prece
Verdade....esconde esconde
jogo de esconde esconde
tudo tudo se esconderá
Mentira.... esconde esconde
jogo de esconde esconde
tudo tudo se esconderá...
(Sá/Guarabyra)

sábado, 1 de novembro de 2008

100 anos de Cartola ...


Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo( a alvorada )
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Ou quase nada, do que ir assim, vagando
Nesta estrada perdida...
(Alvorada - Cartola)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Auto-Retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...
Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...
E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,
No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!


(Mário Quintana)

sábado, 25 de outubro de 2008

Estações

Mudaram as estações nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre sem saber
que o pra sempre sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa...
(Renato Russo)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sentir Saudade ...



Sentir saudade é merecimento e digo sem medo
Sentir saudade é como a poesia encarnada
A espera de alforria e palavra cantada
Luzir saudade, rever saudade

Quando vestido me dispo de saudade
Quando estou nu me pego de saudade
Quando me pego te espero com saudade
Quando te espero me visto de saudade

Sinto saudade até te esquecendo
Sinto saudade lhe vendo e lhe tendo
Sinto saudade as vezes doendo
Sinto saudade enquanto estou vivendo
(André Madi )www.myspace.com/andremadi

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Noites com Sol ...

Ouvi dizer que são milagres
Noites com sol
Mas hoje eu sei não são miragens
Noites com sol
Posso entender o que diz a rosa
Ao rouxinol
Peço um amor que me conceda
Noites com sol
Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir as janelas
Noites com o sol e neblina
Deixa rolar nas retinas
Deixa entrar o sol

Livre serás se não te prendem
Constelações
Então verás que não se vendem
Ilusões

Vem que eu estou tão só
Vamos fazer amor
Vem me trazer o sol
Vem me livrar do abandono
Meu coração não tem dono
Vem me aquecer nesse outono
Deixa o sol entrar
Pode abrir as janelas
Noites com sol são mais belas
Certas canções são eternas
(Flávio Venturini/Ronaldo Bastos) http://www.flavioventurini.com.br/

domingo, 19 de outubro de 2008

Temperamento Impulsivo


“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
(Clarice Lispector)

Sem Fantasia



Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
(Chico Buarque)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Luz dos Olhos

Ponho os meus olhos em você se você está
Dona dos meus olhos é você, avião no ar
Um dia pr'esses olhos sem te ver é como o chão do mar
Liga o rádio a pilha e a TV só pra você escutar...
A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora
Os meus olhos vidram ao te ver, são dois fãs, um par
Pus nos olhos vidros pra poder melhor te enxergar
Luz dos olhos, para anoitecer é só você se afastar
Pinta os lábios para escrever a tua boca em minha...
Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a Lua irradia a glória
E eu te chamo
Eu te peço vem
Diga que você me quer
porque eu te quero também
Faço as pazes lembrando
Passo as tardes tentando lhe telefonar
Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando sem você desembarcar
Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro fusca lá fora
E eu vou guiando
Eu te espero, vem
Siga onde vão meus pés
porque eu te sigo também
Eu te amo,
Eu te peço vem
Diga que você me quer
porque eu te quero também...
(Nando Reis)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Eu ouço música...



Eu ouço música
como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...
Eu ouço música como
quem está morto
e sente
já um profundo
desconforto
de me verem
ainda neste mundo de cá...
Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!
Eu ouço música
como um anjo doente
que não pode voar.
(Mário Quintana)

domingo, 28 de setembro de 2008

Tentação



Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons...
(Choro Bandido - Chico Buarque e Edu Lobo)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Eurídice



Tantas vezes já partiste
Que chego a desesperar
Chorei tanto, estou tão triste
Que já nem sei mais chorar
Oh, minha amada, não parta
Não parta de mim
Oh, uma partida que não tem fim
Não há nada que conforte
A falta dos olhos teus
Pensa que a saudade
Pode matar-me
Adeus...
(Valsa de Eurídice - Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Já passou ...

Já passou, já passou
Se você quer saber
Eu já sarei, já curou
Me pegou de mal jeito
Mas não foi nada, estancou
Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou
Faz-me rir, ha ha ha
Você saracoteando daqui pra acolá
Na Barra, na farra
No Forró Forrado
Na Praça Mauá, sei lá
No Jardim de Alá
Ou no Clube do Samba
Faz-me rir, faz-me engasgar
Me deixa catatônico
Com a perna bamba
Mas já passou, já passou
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou ...
(Chico Buarque)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Lídia ...




Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas (enlacemos as mãos)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses
Desenlacemos as mãos,
porque não vale a pena cansarmo-nos
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o
Colhamos flores, pega tu nelas e deixá-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente
não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças
E se antes do que eu levares o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te
assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
(Lídia - Fernando Pessoa)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

... Sinceramente sou diferente!

"Gosto dos venenos mais lentos,
das bebidas mais amargas,
das drogas mais poderosas,
das idéias mais insanas,
dos pensamentos mais complexos,
dos sentimentos mais fortes…
tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!
Não me dêem fórmulas certas,
porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim,
porque vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual,
por que sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei a mesma pra sempre..."
(Clarice Lispector)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Basta de Clamares Inocência ...


Basta de clamares inocência
Eu sei todo o mal que a mim você fez
Você desconhece consciência
Só deseja o mal a quem o bem te fez
Basta não ajoelhes, vá embora
Se estás arrempedida
Vê se chora
Quando você partiu
Disseste chora, não chorei
Caprichosamente fui esquecendo
Que te amei
Hoje me encontras tão alegre e diferente
Jesus não castiga o filho que está inocente
Basta não ajoelhes, vá embora
Se estás arrependida
Vê se chora
(Cartola)

Alma de Blues


Preciso programar meu coração
Pra ser desapegado como tu
Quem sabe se eu fizer uma canção
A vida novamente fique azul
Cansei da cantilena sempre igual
Das queixas, culpas, mil explicações
Eu sempre me liberto, bem ou mal
Gastando o sofrimento nas canções
O tema como sempre o nosso amor
Agora está ficando tão antigo
Que as vezes me pergunto se acabou
Nunca tive nada a ver contigo
Não gosto de mergulhos no passado
Lembrar não ressucita o sentimento
O encanto que emoldura o ser amado
Se esvai quando se vai o seu momento
Bom mesmo é ser feliz
Amar de novo
Quem fica vira estátua no caminho
"Rei morto" rima sempre com "Rei posto"
O duro é não rimar e ser sozinho
Mas chega de fazer filosofia
O céu mais uma vez se fez azul
Enquanto espero a hora da alegria
Eu canto sem tristeza um doce blues
(Rosa Passos/Fernando Oliveira)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Bilhete ...



Quebrei o teu prato,
tranquei o meu quarto
Bebi teu licor
Arrumei a sala,
já fiz tua mala
Pus no corredor
Eu limpei minha vida,
te tirei do meu corpo
Te tirei das entranhas
Fiz um tipo de aborto
E por fim nosso caso acabou,
está morto
Jogue a cópia da chave por debaixo da porta
Que é pra não ter motivo
De pensar numa volta
Fique junto dos teus
Boa sorte,
adeus...
(Ivan Lins/Vitor Martins)