sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Soneto do "Se"



Se amar é desejar que outra pessoa
(Ou animal, ou coisa) esteja bem,
Querer que, estando mal, já fique boa,
E, vendo-a sofrer, sofrer também,

E conversar sobre qualquer assunto,
Ou ler no olhar o que a boca não diz,
Querer que o outro venha e fique junto,
Mas, só por lembrar dele, estar feliz,

Então agora eu completo de vez
Esta paródia do poema inglês
E de nós dois posso dizer, enfim:

Nossa é a Terra com tudo o que há nela,
E, o que ainda é muito mais, oh! bela,
Posso dizer também: eu te amo, sim...

(mais ou menos à maneira de Kipling)
(Ayrton Mugnaini Jr.)

sábado, 24 de setembro de 2011

Quente



É garçom, não entendeu errado não. 
Um amor sem gelo, copo triplo, 
bem misturado, mas sem gelo!
Certas coisas prefiro quentes, o amor é uma delas.

(Caio Fernando de Abreu)

domingo, 7 de agosto de 2011

Cicatrizes



Amor que nunca cicatriza
Ao menos ameniza a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida a dor domina
Arrasa e arruina
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor

Acho que estou
Pedindo uma coisa normal
Felicidade é um bem natural
Uma, qualquer uma
Que pelo menos dure enquanto é carnaval
Apenas uma, qualquer uma
Não faça bem mas que também não faça mal

Meu coração precisa
Ao menos amenizar a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida a dor domina
Arrasa e arruina
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor.

(Cicatrizes - Miltinho/Paulo César Pinheiro)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Enredo



Tem um enredo nas nossas coisas, que eu não identifico, porque sempre emburreço quando, é você o tema. Olho, pela janela do apartamento, cuspo nos carros, sou um transgressor de gabinete, nenhuma teoria se verifica, quando é contigo. Acho que você me desgoverna e me impõe uma desobediência passional tamanha, que eu renuncio e me auto-mutilo em relação às minhas vontades.

Te encontrar nua me irrita, pois me livra de uma tarefa que me atribuo sempre. Não quero o som de Nana abafado pelos meus gritos, quero mais Piazzola e bandoneons à meia-luz. Não quero flores, quero odores, perfumes. As flores deixo para as fotografias.
Eu quero poder rir quando você errar a receita do bolo e fabricar um pastucci, que eu comerei com cara de tonto. Eu quero fingir que aquela poesia do Chico é minha e perceber na leitura dos teus hormônios o efeito. Eu quero ir embora, só prá você se por à frente e me chamar para ver a lua ou me mostrar no youtube, uma cantora nova que eu vou gostar muito. E eu, provavelmente gostarei pela indicação da tua voz. Que no cantarolar, já me convence.
Eu mapeei teu corpo e estou pronto para qualquer prova. Te conheço palmo a palmo ou por regiões, com toda e qualquer característica pagã. Eu, disse na terapia de grupo, que eu sei mais de você do que de mim, e propus abordar você prá distribuir minha tese.
O Amor dói, quando queremos tratar da longevidade, até porque ele existe para ser consumido até que se esgote ou se renove o tempo de validade. O que passar daí é costume.O que passar daí, é saudade, que ataca em hora errada e reacende o fogo com paixão.
Quando nós não formos mais que a nossa insanidade, o racional nos cobrará coisas que provavelmente,não daremos a mínima. Então, enquanto os parâmetros forem outros e o ridículo não estiver em questão, que tal de novo aquele som do Wando. E a letra a gente já canta de cor...
A lua nos reprime por querer decodificar seus encantos, em vez de aproveitar o luar, que é dos namorados. Ah, deixa a lua para os poetas, que o amor se estica até que o elástico do destino nos alcance e nos ponha cara-a-cara com a continuidade. Ou não.
(João Barboza)

sábado, 16 de julho de 2011

Fecha os olhos e confessa


Fecha os olhos e confessa que não consegue me esquecer nem quando está de olhos vendados. Eu tenho o direito de passear pelos teus olhos, roçar a pele dos teus lábios, provar o desenho da fibra da tua língua, sussurrar em teu ouvido. Eu invado e mesmo onde não me é permitido, entro.E me instalo. E quem quiser que reclame no sentimental, tenho todas as permissões assinadas pela tua pele. Na tua paixão, tem o meu olho em qualquer situação. Se quiser me submeter a exames, estou pronto.
(João Barboza)

sábado, 9 de julho de 2011

Edredom faz bem


A noite é fria, essa dama se deita
E se deleita envolta no edredom
Mesmo com frio lá fora fustigando
Ela transpira, tem um sonho bom,
Sonho daqueles de sonhar com anjo
Que toque banjo, baixo ou violão
E que a enleve e leve até a Lua
Arfante, nua e entregue de paixão
O Sol faz com que ela se recobre,
Deusa de cobre, estátua de prazer,
E acorde satisfeita e renascida
Ganhando vida e fazendo viver
O anjo que pensa em quando ela dorme
E se transforma e transpira também,
Saliva, arfa, pulsa e cai gemendo
Feliz, dizendo: “Edredom faz bem...”





(Ayrton Mugnaini Jr.)

domingo, 3 de julho de 2011

Feito pra acabar


Quem me diz
Da estrada que não cabe onde termina
Da luz que cega quando te ilumina
Da pergunta que emudece o coração
Quantas são
As dores e alegrias de uma vida
Jogadas na explosão de tantas vidas
Vezes tudo que não cabe no querer
Vai saber
Se olhando bem no rosto do impossível
O véu, o vento o alvo invisível
Se desvenda o que nos une ainda assim
A gente é feito pra acabar
A gente é feito pra dizer
Que sim
A gente é feito pra caber
No mar
E isso nunca vai ter fim


(José Miguel Wisnik/Marcelo Jeneci/Paulo Neves)

sábado, 2 de julho de 2011

Ninfa


Sou uma ninfa
estas ruas da cidade
ou jardins dos bairros
são estranhos para mim.
Vivo num mundo de sonhos
percorrendo bosques encantados
onde diáfanas e etéreas mulheres
entoam cânticos de amor
fascinadas pela emoção de amar!
Amar inconsequentemente
numa insensatez sem pecado!
E entre as flores
que formaram o buque
de imagens místicas
predominou de repente a liliácea!
A ela entoarei
minhas últimas preces para que se extasie,
infinitamente!

(Cassandra Rios)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tento chegar do meu modo

E é porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando.
É porque sempre tento chegar pelo meu modo.
É porque ainda não sei ceder.
É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. (...)
É também porque eu me ofendo à toa.
É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade,
pois sou muito teimosa. (...)
Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes.
Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.
Talvez eu tenha que chamar de “mundo”
esse meu modo de ser um pouco de tudo.

(Clarice Lispector- Felicidade Clandestina)

domingo, 26 de junho de 2011

Meu mundo

O meu mundo não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais;
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que eu nem mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessimista;
sou antes uma exaltada, com uma alma intensa ...
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade… sei lá de quê!

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Foi pra Ti

Foto by Anita Kalikies


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

(Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas")

domingo, 19 de junho de 2011

Pequenos Milagres


A gente nem percebe, mas pequenos milagres acontecem a toda hora.
O estímulo de uma palavra amiga, a cumplicidade de um sorriso, a sutileza de um gesto...
Essas são pequenas coisas que podem mudar o nosso dia.
E sem sentir, a gente também acaba fazendo milagres por aí também.
Sabe aquele conselho, aquele toque no amigo que precisa de ajuda?
Pois é, parece bobagem, mas a gente pode transformar o humor de alguém com um simples carinho.
E quantas vezes nós mesmos não experimentamos pequenos milagres?
O elogio inesperado de um colega no trabalho.
O telefonema do filho que está longe.
O resultado feliz de um exame de saúde.
O doce bom na sobremesa.
A folga pra ir à praia.
O caminho sem engarrafamento.
Pequenos milagres são porções de alegria
que a gente vai ganhando ou doando todos os dias.
São pedacinhos de cor que enfeitam a alma.
São trechos de música que acalmam o coração.
Por menores que sejam os resultados, por mais anônimos que sejam os sucessos...
Os pequenos milagres precisam existir
pra que a gente não esqueça nunca do milagre maior de estarmos vivos.

(Lena Gino)

sábado, 18 de junho de 2011

Liberdade


‎Que nada nos limite.
Que nada nos defina.
Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância.
Vivemos amores necessários e contingentes.
Embora o primeiro seja o caminho,
o repouso e o segundo vibração e êxtase;
ao louvar os amores necessários que tive,
não posso esquecer dos outros, que passaram na sombra,
mas que nunca deixaram de viver em mim.

(Simone de Beauvoir)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Não és os Outros


Não há de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos.
Não te salva a agonia ...
De Jesus ou de Sócrates
ou o forte Siddharta de ouro
que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca.
Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante Tempo.
E és cada solitário instante.

(Não és os Outros - Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro" Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Basta o essencial


Meu tempo tonou-se escasso para debater rótulos,
quero a essência, minha alma tem pressa.
Quero viver ao lado de gente humana,
muito humana que sabe rir, amar sem julgar,
rir de seus tropeços, não se encantar com triunfos,
não se considerar eleita antes da hora,
não fugir de sua mortalidade.
Só há que caminhar de coisas e pessoas de verdade...
Para mim, basta o essencial.

(Mário Quintana)

domingo, 12 de junho de 2011

As Mensageiras



Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe!
Sinto tua alma Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

(Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas")

sábado, 11 de junho de 2011

Blues e Vinho!

O Amor


Quando encontrar alguém e esse alguém
fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção:
pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta:
pode ser a pessoa que você está esperando
desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso,
se o beijo for apaixonante,
os olhos se encherem d’água neste momento,
perceba:
existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa,
se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração,
agradeça:
Deus te mandou um presente:
O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego
para a melhor coisa da vida:
O AMOR!

(Carlos Drummond de Andrade)


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ser feliz de novo


‎Gaste seu amor.
Usufrua-o até o fim.
Enfrente os bons e os maus momentos,
passe por tudo que tiver que passar, não se economize.
Sinta todos os sabores que o amor tem,
desde o adocicado do início até o amargo do fim,
mas não saia da história na metade.
Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo,
fechando o próprio ciclo.
Isso é que libera a gente para ser feliz de novo.


(Martha Medeiros)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Confusão



Meu coração é teu coração?
Quem me reflexa pensamentos?
Quem me presta esta paixão sem raízes?
Por que muda meu traje de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu tanta estrela?
Irmão, és tu ou sou eu?
E estas mãos tão frias são daquele?
Vejo-me pelos ocasos,
e um formigueiro de gente anda por meu coração.

(Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos' Tradução de Oscar Mendes)